A diferença de se viajar com a mãe

Publicado em 6 de maio de 2019

Dona Giani encarou o mochilão de seis dias pelas Cidades Históricas de Minas Gerais @meudestinoelogoali

Maiara Barbosa

Até meus oito anos ela segurava sempre na minha mão na hora de atravessar a rua e não me deixava sair sozinha de casa para nada. No máximo, dois quarteirões de “liberdade” até a casa da minha avó. Lembro que aprendi andar, de novo, só de que dessa vez sozinha no Centro da cidade, aos 11. Depois disso não me recordo quantos anos eu tinha quando dormi fora de casa pela primeira vez, da primeira “balada”, mas lembro muito bem da minha primeira viagem sem ela.

No primeiro ônibus, até BH, teve alguém que não conseguiu dormir @meudestinoelogoali

Foi aos 20 anos e o destino era Vila Velha, no Espírito Santo. Que dureza pensar nas roupas, fazer as contas de quanto poderia gastar e preparar o kit de primeiros socorros. E se eu sentisse cólica? E se eu me machucasse? E se eu ficasse com febre? Dessa vez, aquela blusinha que não coube na mala ficou em cima da cama mesmo, já que não tinha um “espacinho livre” na sua bolsa pra mim.

Na chegada ao aeroporto, a primeira ligação foi para ela. E assim se manteve a rotina naqueles quatro dias de viagens: nos falávamos pela manhã, no horário do almoço e, se duvidasse, mais duas ou três vezes até a hora que ela fosse dormir lá pelas 20h30.

Nossa primeira parada foi em Ouro Preto @meudestinoelogoali

Voltei de viagem, embarquei em outras aventuras e a sua ausência foi ficando mais constante. As minhas companhias se tornaram, cada vez mais, os meus amigos. Ou então, ia sozinha. Os “bate-e-volta” para a praia com a família não aconteciam sequer uma vez ao ano, mesmo morando a 50 minutos do litoral.

Mãezinha estava ficando cada vez mais em casa e foi em 2016 que eu e ela fomos viajar juntas novamente. Só eu e ela! Estava de férias e ela, como toda boa mãe que se preze, estava com um certo “medinho” de que eu fosse viajar sozinha. Em pleno mês de fevereiro, não tinha encontrado ninguém pra embarcar em um mochilão pelas cidades históricas de Minas Gerais comigo.

O que eu não tinha percebido é que a companhia que eu mais precisava estava ali do meu lado. Foi ai que decidimos que ela iria comigo. Dessa vez, meu pai não pode embarcar junto conosco por conta do trabalho.

As semanas que antecederam a viagem passaram voando. Minha mãe estava ansiosa com a novidade e queria saber de tudo para onde estávamos indo: hotel, o que iríamos ver por lá e, principalmente, como iríamos nos locomover de uma cidade para a outra.

Mamãe se apaixonou por Tiradentes e diz que quer voltar lá @meudestinoelogoali

Foram seis dias entre Ouro Preto, Mariana, Tiradentes e São João Del Rei e 12 passagens de ônibus diferentes guardadas no bolso da calça jeans. Para que ela entendesse toda a “logística”, montei até uma apresentação de slides para ela ver que preparava tudo com muito carinho, assim como ela sempre fez comigo.

Embarcamos numa terça-feira à noite e a previsão era que chegássemos na manhã seguinte em BH e, de lá, pegaríamos um ônibus até Ouro Preto. Minha mãe não consegue dormir com um barulho sequer e no ônibus não descansou tudo aquilo que precisava, afinal de contas, iríamos andar bastante nos dias seguintes. Fiquei preocupada.

A preocupação que senti no começo achando que ela “não daria conta do recado” foi em vão. Minha mãe andou por todas as ladeiras ao meu lado, foi dormir tarde na noite em que resolvemos jantar em uma pizzaria, visitou várias igrejas, comprou lembrancinhas para toda a família, enfeites para nossa casa, comeu muitos doces e se divertiu no passeio de Maria Fumaça.

Eu de mochila, ela de mala de rodinha, aguardando um entre tantos ônibus durante o mochilão @meudestinoelogoali

Ela se apaixonou por Tiradentes e ainda disse que quer voltar para lá e levar meu pai e minha avó. Em certos momentos ela parava e, sem dizer nada, apenas olhando pra mim, pedia que eu resolvesse as coisas.

No guichê da rodoviária, sempre era eu quem falava com o atendente e pedia que ela me entregasse o documento para emitir a passagem.

Na hora do almoço, era ela quem avaliava, melhor do que qualquer fiscal da Vigilância Sanitária, onde deveríamos comer.

No dia de voltarmos embora, ela já estava triste por saber que no dia seguinte não ia ter aquela fartura de café da manhã e que a louça sobraria para ela.

Naquele mesmo dia, machuquei a perna direita enquanto andava na rua. Ainda bem que ela tinha um baid-aid na bolsa, já que eu mesma tinha esquecido de levar esses curativos na mala.

Afinal, somente as mães conseguem arranjar um espacinho na mala para um kit de primeiros socorros completo.

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