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Amazônia: histórias de quem vive na Floresta

Turismo de Base Comunitária foi o tema do meu TCC da pós-graduação. Mas, o que eu não aprendi com os livros, artigos científicos e pesquisas é o quanto vivenciar esse estilo de viagem poderia me emocionar!

Ao longo de sete dias, que estive na comunidade do Lago Acajatuba, no médio Rio Negro, pude sentir a grandiosidade da Floresta Amazônica num simples trajeto de canoa pelos igapós, na observação das estrelas, ou quando um animal surgia do meio da floresta…

O tempo passou mais devagar ao ouvir as histórias de caboclos e ribeirinhos. Principalmente as de tantas mulheres inspiradoras, criativas e que lutam pra manter a floresta em pé, como a Dona Neuri, a Gisele e a Alessandra… Aliás, quanta honra essas mulheres nos proporcionaram ao compartilhar um pouco dos seus conhecimentos!

Histórias essas que compartilho agora com vocês:

Dona Neuri e as abelhas da Flor de Taxi

Assim que a nossa canoa encostou na entrada do Rancho, dona Neuri e o marido nos esperavam em frente ao portão de madeira, bem embaixo de um portal que indicava que ali ficava o Meliponário da Flor do Taxi.

Com o celular na mão, ela registrava a nossa chegada, orgulhosa em receber os novos visitantes. Depois de se apresentar, com um sorriso largo no rosto e fortes abraços, fomos convidados a entrar.

Caminhando pelas árvores da floresta, chegamos até um espaço no seu quintal preparado pras explicações sobre as abelhas e as propriedades do mel e do pólen. Mas antes disso, ouvimos a história da própria dona Neuri!

Aos 55 anos, ela foi desvendar por completo o universo das palavras quando já era jovem. Na infância, havia aprendido apenas as letras e algumas palavras. Curiosa e determinada, Neuri buscava nas revistas conteúdo para treinar a leitura. Mas, a ela, não bastavam revistas quaisquer, de amenidades, ou assuntos aleatórios. Ela queria ler sobre algo que lhe representasse, que contasse a história do seu povo.

E foi no ano de 1992, quando o Brasil discutia a pauta climática na conferência ECO-92, que durante uma visita em Manaus, a Dona Neuri encontrou uma revista que falava sobre a importância da Amazônia. Daí em diante ela não parou mais de ler e novas oportunidades foram surgindo na medida que se interessava mais e mais pelo assunto.

Em parceria com a Embrapa, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Dona Neuri buscou cursos de capacitação e passou a trabalhar com o manejo do mel produzido por abelhas sem ferrão, que se polinizam as árvores da Flor do Taxi.

No início, eram 15 famílias envolvidas no projeto. Hoje já são 62. Mas, nem sempre os números refletem realidades positivas.

Saiba mais:

Em um dos cartazes expostos no jardim estão as fotos de como a vida dos caboclos daquela região já está sendo afetada pelas mudanças climáticas. Em época de seca, é preciso seguir empurrando o barco até o trecho navegável do rio para ir até a cidade mais próxima fazer compras no mercado.

Se o mel da flor do taxi é raro, já que um frasco pode custar cerca de 250 reais e levou sete anos pra fábrica se consolidar, hoje, o tempo de produção aumentou. Para cada colher de mel, as abelhas precisam visitar, em média, 2 mil flores. Com a seca, a florada espaçou e as abelhas precisam viajar para mais longe para buscar o pólen.

Há dois anos Dona Neuri não comercializa mais mel. A quantidade presente nas caixas é suficiente apenas para o consumo e manutenção das próprias abelhas. Consciente da importância dos animais para a polinização dos nossos alimentos e pra nossa segurança alimentar, ela não explora este recurso para o lucro próprio comercializando o produto.

Afinal, ela sabe que, se as abelhas entrarem em extinção, a nossa existência também está ameaçada.

Os sonhos e as realizações de Gisele através do biju

O cheirinho da lenha queimando revela que tem algo sendo preparado no fogo. Na casa da Gisele, o grande tacho em que ela faz a tapioca nunca está vazio.

Mãe solo de quatro crianças, hoje ela se orgulha em dizer que conquistou grande parte dos seus sonhos graças ao Turismo de Base Comunitária, explicando aos viajantes interessados, como funciona o seu modo de vida e de trabalho.

Ali mesmo é onde ela planta a mandioca brava, colhe e faz todo o manejo do tubérculo, que tanto pode virar goma para o beiju, ou o caldo do tucupi, que acompanha diversos pratos amazônicos, como o tacacá. Depois de descascada, lavada e ralada, a massa da mandioca brava é prensada até liberar um líquido (o tucupi) que, depois de separado da goma, precisa ser fervido pra eliminar o ácido cianídrico, que é altamente venenoso.

A Gisele repete o processo, as explicações e demonstrações à todos que chegam até a sua casa com o mesmo carinho e dedicação. Sejam brasileiros, ou estrangeiros, todos são convidados a colocar a mão na massa e ajudar a preparar o beiju, que logo mais, será servido acompanhado de um café, ou de um suco de cupuaçu colhido dali perto mesmo.

Os filhos da Gisele estão sempre por ali também. Os mais velhos já estão aprendendo como receber os viajantes para ensiná-los algumas técnicas de artesanato.

Os menores, se dividem entre cuidar da barraquinha que a mãe deixa montada no quintal para vender colares, brincos, pulseiras e doces, e também com as brincadeiras no quintal de terra. Enquanto isso, já estão aprendendo a cantar algumas músicas que refletem o dia a dia deles: “ta-ta tapioca, Maria tá peneirando tapioca…”

Pra eles, a descoberta que um carrinho de brinquedo pode ultrapassar um cano de construção deixado no quintal, como se fosse um túnel, deixa tudo mágico no ar.

Crianças criadas soltas, com sorriso fácil, em pouco tempo já estavam socializando com todos, jogando bola e pedindo ajuda pra se equilibrarem na bicicleta.

Dentre tantas brincadeiras, outro momento importante na vida de toda criança é o aniversário. E, quando não se tem bolos confeitados, balões coloridos e estamos no meio da Floresta Amazônica, o beiju vira o bolo pra festa! E foi desse jeito que um dos filhos da Gisele comemorou seu aniversário e tivemos o privilégio de participar na nossa segunda visita naquele rancho.

No final entendemos que o convite foi presente pra gente, e não pro aniversariante, ao podermos participar desse momento da história da família.

A cozinha da Alessandra, onde a castanha e o cupuaçu viram doces e geram renda

Há um ditado que diz que a cozinha é a alma da casa. Na casa da Alessandra, além do espaço onde fica o fogão, a geladeira e a pia refletir a sua alma e preservar os ingredientes em abundância da Amazônia, é também o lugar do sustento da família!

Alguns anos ela aprendeu a preparar doces feitos a partir de frutas, que antes, se perdiam no seu quintal, como o cupuaçu, a castanha, capim santo, pimenta e gengibre.

A felicidade da família, que agora encontrou uma nova fonte de renda que depende somente da união perfeita deles com a floresta, fica estampada no sorriso de todos que moram ali.

Com muito bom humor e alto astral, a Alessandra confiou à nós suas panelas. Sob à supervisão da doceira, pudemos preparar dois doces e vimos o cuidado e o capricho com as embalagens de vidro, que precisam ser esterilizadas antes de receber o rótulo em adesivo com o logo da marca que ela criou!

Aqueles potinhos, que espalham alegria nas mãos de quem os recebe, também deixam a família da Gisele feliz com o sustento garantido o ano inteiro… Felicidade que continua até mesmo quando ela recebe um grupo que deixa a cozinha dela de pernas pro ar, como foi o nosso.

A sensibilidade dos aromas amazônicos da Su

A Floresta Amazônica guarda folhas, ervas e plantas capazes de curar e prevenir centenas de doenças. Muitas que ainda nem descobrimos seus benefícios! E, o que já sabemos, veio através do conhecimento ancestral, que é passado de geração pra geração entre as comunidades ribeirinhas e os caboclos.

E foi confiando em todos os sentidos, principalmente no olfato, que a Su apostou em criar cosméticos amazônicos para empreender.

Pó de serragem, carvão de bambu, buriti, açaí, castanha, andiroba, breu branco, cupuaçu e mulateiro estão entre as plantas que ela utiliza para preparar óleos essenciais, cremes, sabonetes, velas e até perfumes!

Na mesma calma e tempo que uma fragrância leva tempo para maturar, a Su explica para nós, um a um, como é formado um perfume e nos deixa provar diferentes aromas, pra que a gente possa escolher quais preferimos.

As fragrâncias de topo, meio e fundo, além de terem tempo de fixação diferente, também precisam fazer parte de uma mesma família, como é o caso das essências mentoladas, cítricas, florais e amadeiradas.

Só que, para a Su, o resultado do perfume é mais do que a combinação técnica das essenciais. Nossas escolhas são reflexos daquilo que sentimos e o que buscamos. Por isso, no final, encerrei a minha visita com um vidrinho de perfume no bolso e o recado para perdoar o que for preciso e aceitar o novo que vier.

Projeto Quelônios

Tartarugas de água doce também fazem parte do bioma amazônico e, assim como outras espécies de animais, estão ameaçadas de extinção por conta da cobiça humana.

O problema com a espécie é mais agravante, já que elas são vítimas da exploração dos ovos, fase que ainda os animais nem conseguem se defender dos caçadores.

Para tentar reverter a situação e trazer mais vida aos rios da Amazônia, o Projeto Quelônios na comunidade do Lago Acajatuba, recruta voluntários para coletarem os ovos dos ninhos antes que os caçadores apareçam.

Num berçário montado na comunidade, os ovos se desenvolvem até que os filhotes nasçam para as águas. Só depois de um certo tempo, quando maiores, é que as tartarugas são entregues aos rios.

Ao longo dos últimos anos, o trabalho só foi crescendo e melhorando os resultados. Em 2022, 450 ovos foram recolhidos. Já em 2023, o número aumentou para 1050 e, em 2024 cresceu ainda mais, atingindo a quantidade de 1122 ovos resgatados.

O sucesso que o projeto vem trilhando, mostra que, mesmo a passos lentos como os dos filhotes das tartarugas, é preciso seguir em frente para preservar todos que fazem parte da Amazônia, até mesmo aqueles que ainda nem nasceram.

Como vivenciar o Turismo de Base Comunitária na Amazônia?

Antes de escolher a sua agência, a quantidade dias que você ficará na floresta e o seu destino final, pesquise também sobre as atividades que a empresa realiza para minimizar os impactos na comunidade e se o local prioriza iniciativas sustentáveis.

Diferentes empresas em Manaus oferecem opções de pacotes de “selva”, como eles chamam os hotéis que ficam na Floresta. Na grande maioria, as atividades se concentram em municípios vizinhos à capital Manaus e o transporte até a hospedagem, assim como a alimentação e o guia já está incluso.

Algumas agências oferecem ainda a oportunidade de acampar uma noite na floresta. A estrutura é simples: redes para dormir com protetor de mosquitos, refeições preparadas na fogueira e, claro, sem sinal de telefone e energia elétrica e banheiros.

* O serviço da empresa Vivalá é apenas uma indicação do Meu Destino é Logo Ali, livre de qualquer contraprestação.

 

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