Morar em Portugal: Dicas que você NÃO deve seguir, mas que podem te ajudar no país

Publicado em 15 de junho de 2020

Eduardo Faria*

Quando a Maiara me convidou para escrever algo sobre “dicas para quem quer morar em Portugal“, considerei escrever várias coisas que poderia listar desta minha experiência nem um pouco fácil, mas também não tão difícil, de morar em Braga, na região Norte de Portugal. Vim para estudar Mestrado em Ciências da Comunicação, mas, inclusive, também considerei não escrever nada. Explico o porquê mais adiante.

Por ora posso dizer que vou falar um pouco sobre como tem sido para mim esta vida além-mar. Acredito que quase todo mundo conhece alguém que mora fora e sempre tem uma recomendação/dicas/sugestões/conselhos para falar. Não que isso seja um problema, a tal das dicas e dos conselhos, mas desde que me perguntem algo sobre, não vejo o problema em dizer. Talvez a grande questão seja falar a respeito de forma geral e abrangente: “dicas para que deseja morar em Portugal”, de modo que as minhas sugestões, com base nas minhas experiências pessoais como estudante, trabalhador informal e imigrante, direcionem alguém de algum modo ou dê uma ideia equivocada de Portugal ou dos portugueses.

Sabemos que Portugal é um país “mais pequeno”, como diriam os portugueses, em relação ao Brasil. Seu tamanho é equivalente ao Estado do Pernambuco e sua população, em torno dos 10 milhões, é inferior à população de São Paulo, que segundo o último senso, passa dos 12 milhões de habitantes. Mesmo assim, a minha experiência de Portugal é limitada, porque eu morei e – ainda moro – em apenas uma cidade até agora. Braga, onde vivo há um ano e meio, é uma cidade pequena localizada no norte do país, com hábitos interioranos e longe dos grandes centros.

A vida em Braga é, como dizem, “pacata”, bem diferente, por exemplo, do dia a dia em Porto ou Lisboa. Em Braga é possível ir e vir da Universidade, barzinho, shopping, mercado, balada… a qualquer hora do dia ou da noite com o celular na mão e o coração tranquilo. E, pelo que ouço, é uma liberdade bem diferente daqueles que escolheram ou pretendem escolher Lisboa para morar. É justamente por isso que eu não posso dar dicas para quem quer ir morar no país, porque a minha realidade não reflete à realidade da vida em Portugal. Posto isso, por além das dicas, posso dizer que Portugal é um bom país para se viver.

Quando comecei a pesquisar sobre morar em Portugal, em alguns momentos tive receio por saber das experiências ruins que outras pessoas tiveram. Com relatos de casos de xenofobia, exploração de mão-de-obra em trabalhos precários, entre outras histórias facilmente encontradas na internet. Por isso, acima de tudo, sempre tentei manter o foco no meu objetivo que era/é o mestrado, independente das dificuldades, sabendo que encontraria obstáculos e sem romantizar a vida na Europa. Ser imigrante, por mais legalizado que esteja em algum país, não te faz um cidadão deste ou de outro.

No dia a dia vamos percebendo pequenas atitudes que nos colocam em nosso lugar de imigrante. Seja num atendimento público ou na fila do mercado – e é preciso saber lidar com isso. Mas esta tratativa às vezes “diferenciada” não é exclusividade de Portugal, no Brasil também é possível encontrar alguns casos de xenofobia contra os haitianos ou venezuelanos que tentam ganhar a vida no centro de São Paulo. Basta conversar com eles, e, por mais que gostem do país, sempre terão algo sobre a observar.

Além de ser culturalmente rico, a familiaridade com o idioma faz de Portugal um bom destino para quem quer morar fora e tem barreiras com outros idiomas. Mas por ser o mesmo idioma alguém pode te dizer: “Ah, mas Portugal nem conta como intercâmbio…”. Conta sim! Intercâmbio não apenas sobre aprender um novo idioma, é também sobre aprender e vivenciar novas culturas e estar aberto a conhecer a si mesmo acima de tudo.

Então, a primeira coisa que coloquei na cabeça quando fui morar em Portugal é que eu teria que estar aberto ao novo. E isso incluiu tentar adquirir o hábito de comer peixe – que não rolou. Mas posso dizer que hoje não dispenso um bacalhau a natas – a única versão que aprendi a comer. Estar aberto ao novo nos coloca diante da possibilidade de testar e aproveitar tudo que nossa estada em outro país pode oferecer.

Uma outra coisa que me ajudou muito foi tentar buscar minhas próprias opiniões sobre o país, pessoas, comida, vida… Ou seja, não fazer uso da realidade dos outros estrangeiros que já estavam em Portugal antes mim. Cada um tem uma forma de se relacionar com a vida, com as pessoas e com o mundo; cada um enxerga as coisas de uma forma, então eu buscava perceber e traçar algumas opiniões de acordo com o que ia vivendo dia a dia.

Saiba mais:

A terceira coisa pode parecer clichê, mas foi muito útil no meu caso: seja você mesmo e tenha orgulho de onde você veio. Não tem nada mais desagradável e vergonhoso do que ver brasileiros falando muito mal do próprio país. Sim, o Brasil tem problemas: violência, corrupção, uma política ruim, desigualdade social… a lista é grande? Sim. Mas isso tudo não faz dele o pior destino do mundo. E falar mal do Brasil não torna ninguém mais europeu – e isso inclui quem mora lá há anos e tem passaporte vermelho.

Importante: alguns brasileiros que vão morar em Portugal acabam tendo que trabalhar em diferentes áreas fora de seu conhecimento ou formação. Esta é uma realidade da maioria dos imigrantes na Europa ou em qualquer outro lugar do mundo. E tudo bem trabalhar fora da sua área, não se sinta inferior ou diminuído por conta disso.

Certa vez, num trabalho que arrumei no verão, ouvi de um senhor português no auge dos seus 60 anos: “Sabe a única coisa boa que tem no Brasil?”, ele perguntou. E depois soltou: “O avião da TAP que vem para Portugal, porque de resto…”, e caiu na gargalhada.

Silêncio.

Mas isso não faz dos portugueses ou do país um lugar ruim. É preciso saber ser indiferente com algumas situações e não generalizar todas as pessoas a partir do comportamento de alguns. Têm muitos portugueses que amam o Brasil e nos tratam muito bem, mas sempre tem aquela minoria desagradável que insiste em manter um pensamento colonizador de superioridade. Mas isto é normal e mais uma vez é preciso saber lidar com isso.

Se assim como eu você tiver a intenção de estudar em Portugal, as universidades portuguesas recebem pessoas de várias partes do mundo, o que deixa a relação mais harmoniosa. Por ser um lugar tão plural, com pessoas de diversas nacionalidades, no ambiente acadêmico dificilmente você sentirá algum desconforto por ser brasileiro ou presenciar com mais facilidade qualquer outro tipo de situação.

Estudar fora é uma oportunidade. Independente da sua situação financeira, acredito que estudar com pessoas de outras nacionalidades e culturas é uma oportunidade de crescimento pessoal gigantesco.

E é justamente encarando como oportunidade, que tento mantar um olhar otimista em relação a todas as situações que parecem insuportáveis.

Para encerrar, não há nada melhor do que estar na Europa e poder fazer as viagens para os destinos que você sempre sonhou com preço que jamais pagaria no Brasil. Então, a única recomendação que deixo é: viaje o máximo que puder. Conheça, experimente e sinta um pouco de cada lugar que passar. Não permita que situações difíceis interfiram no seu objetivo, seja ele qual for.

 

Eduardo Faria tem 31 anos e é jornalista. Morando na cidade de Braga, em Portugal, desde 2018, conquistou o título de especialista em Comunicação e Investigação pela Universidade do Minho. Pela mesma universidade também é estudante de mestrado.

Aquariano e ansioso, passou a viajar pela Europa desde o início do intercâmbio e sonha em dar a volta ao mundo.

 

 

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